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25/04/2018 - Mãe, Médica e Pesquisadora fala sobre a Mulher na Saúde


 

 

 

Quais são os desafios enfrentados pelas mulheres na medicina e na ciência? E como superá-los? Para falar sobre o tema, o e-Saúde entrevistou Fernanda Tovar-Moll, vice-presidente do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino.

 

Fernanda é graduada em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), possui mestrado e doutorado em Ciências Morfológicas e residência médica em Radiologia pela mesma universidade, além de pós-doutorado nos Institutos Nacionais de Saúde (National Institutes of Health, EUA). É professora adjunta do Instituto de Ciências Biomédicas e membro do conselho do Centro Nacional de Biologia estrutural e Bioimagem (Cenabio) da UFRJ.

 

No Instituto D’Or, ela se tornou uma das defensoras da maior participação das mulheres nas pesquisas científicas. 

 

Confira a entrevista:

 

Na área da saúde, já temos alguns exemplos de lideranças femininas, mas é muito pouco quando comparamos com os homens. Como você acha que isso pode mudar?

 

As mulheres já são maioria na área da Medicina, nos cursos de graduação médica no Brasil e numa fase inicial da formação acadêmica. Mas isso muda quando analisamos os cargos de liderança no setor de saúde: na academia, na parte de titulação de professores; ou em instituições de saúde, seja do ponto executivo, gerencial, hospitalar ou ambulatorial.

 

Essa questão da liderança feminina está relacionada a uma série de fatores que terão de mudar. Políticas afirmativas podem ser adotadas, mas o perfil da sociedade ainda enxerga uma participação bem mais ativa da mulher na vida familiar, muito mais que para os homens, e há uma crença de que isso não é uma opção da mulher.

 

Isso só pode mudar com a adoção de políticas afirmativas, tanto na esfera pública como na social e empresarial. E, além disso, por meio de exemplos. É preciso mostrar os casos que provam ser possível chegar lá. Quem são as lideranças hoje? Como conseguiram? Isso tem um poder de influência muito positivo para as mulheres.


Em sua opinião, como as empresas podem contribuir para que as mulheres alcancem cargos de comando?

 

Existem alguns exemplos, tentativas para equiparar o percentual entre homens e mulheres e, avaliando todos os critérios, colocar mulheres em postos de liderança. Não é uma questão imediata, mas há empresas que adotaram políticas específicas que vêm dando certo, então é possível.

 


Como as mulheres podem quebrar o paradigma de que devem escolher entre a maternidade e a carreira profissional?

 

Isso é uma questão muito importante. Hoje, esses mecanismos, de uma maneira geral, não existem. Só há uma forma já bastante conhecida: acumular as duas funções.

 

A mulher acaba tendo uma participação muito grande na maternidade, com um período de licenciamento maior do que para o homem. Para ela conseguir acumular função de mãe e continuar sendo efetiva na vida profissional, ela precisa ter ajudas múltiplas. Se não tiver apoio, ela acaba perdendo seu posto e diminuindo sua presença profissional.

 

Essa ajuda pode vir da família ou de uma participação maior e mais intensa do próprio companheiro. Existem algumas iniciativas na vida acadêmica que começam a dar sinais de mudanças. Por exemplo, editais específicos que levam em consideração, além da produção científica da mulher, se ela tem filhos e saiu de licença-maternidade. Assim, há a possibilidade de a mulher descontar o período em que foi realmente deslocada e teve um intervalo na sua vida profissional. Isso hoje é possível para algumas carreiras, mas não para todas. Uma executiva que deixa o posto acaba sendo substituída, e essa recuperação depois fica extremamente difícil.


Por que há especialidades médicas com pouca presença de mulheres? Como mudar isso?

 

Podemos fazer um paralelo com as ciências exatas. Existe hoje um número de mulheres muito menor do que o de homens porque se acreditava que era uma carreira muito mais natural para os homens do que para as mulheres. Existem vários estudos que mostram que isso não é verdade. 

 

Esse conceito, criado popularmente, acaba influenciando a própria escolha das mulheres. Assim, como nas ciências exatas, algumas áreas da medicina acabaram criando uma imagem masculina. Isso pode ser mudado, principalmente mostrando que as mulheres podem ser muito bem-sucedidas nessas carreiras, dando exemplos, como falei anteriormente.

 


Na área da pesquisa científica, como você vê a evolução da mulher?

 

Na academia, temos uma semelhança muito grande com a carreira executiva e com a área da saúde. Vemos grande participação da mulher nos estágios iniciais da carreira, mas poucas chegam ao topo. E não chegam ao topo pelas mesmas razões, porque a carreira científica acaba sendo dividida com vários outros momentos da vida feminina. Há, atualmente, exemplos de iniciativas que tentam diminuir essa diferença, como o edital que citei anteriormente.

 


Qual é o seu conselho para a mulher que deseja seguir a carreira na área de pesquisa e ensino?

 

Tenha foco e saiba que é possível se realmente for o seu desejo. Hoje, eu tenho três filhos e optei por uma formação médica em paralelo com a acadêmica. Inseri-me nessa esfera da carreira científica ligada à medicina, e isso foi possível porque não parei hora nenhuma. Claro, o nascimento das crianças acabou limitando um pouco a minha eficácia na vida profissional, mas em hora nenhuma eu tirei a minha vida profissional do trilho.

 

Temos que tentar ter os dois lados, pessoal e profissional, como um único objetivo. No meu caso, isso só foi possível porque eu tive suporte familiar e participação do meu marido. Ter o apoio do núcleo familiar é fundamental para manter o foco tanto no profissional quanto no pessoal.

 

E o mais importante: faça as suas escolhas e batalhe por elas. Se a decisão for o afastamento temporário da vida profissional, faça-o de forma estratégica, planejando a sua reinserção para o alcance de seus futuros objetivos.