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26/09/2017 - Novidades no tratamento de câncer Saiba o que foi assunto na ASCO


 

 Por Sofia Moutinho, da revista Onco&*

 

A edição deste ano da reunião da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO, na sigla em inglês), o maior evento mundial de oncologia, foi marcada pelo progresso no tratamento de vários tipos de câncer, com grandes mudanças de prática clínica e novas abordagens farmacêuticas.

Em sua 57ª edição, o encontro reuniu mais de 40 mil médicos e teve por lema a frase “Making a difference in cancer care WITH YOU” (Fazendo a diferença no tratamento do câncer COM VOCÊ). Para o presidente da ASCO, Daniel Hayes, o mote é fundamental. “Tratar bem dos pacientes é o motivo principal de fazermos o que fazemos”, diz. “Apesar de sermos uma comunidade diversa, composta de gente de várias disciplinas e perfis profissionais, o nosso foco é o mesmo: prover o melhor cuidado para os pacientes com câncer ou com risco de ter a doença.”

CÂNCER DE MAMA
A ASCO deste ano trouxe boas notícias para o tratamento de pacientes que até então não tinham muitas opções, como as mulheres com câncer de mama triplo negativo. Um dos ensaios clínicos apresentados, o OlympiAD, utilizou pela primeira vez inibidores de PARP - Poly (ADP-ribose) polymerase como tratamento para a doença. A droga oral testada foi o olaparibe (Lynparza), já prescrito para câncer de ovário e recentemente aprovado para esse fim no Brasil.

O estudo de fase III contou com 300 pacientes com câncer metastático e mutações BRCA, incluindo mulheres com receptores hormonais positivos e triplo negativo (negativo para receptor de estrogênio, progesterona e HER2). As pacientes foram tratadas com o inibidor de PARP em doses menores que as recomendadas para o tratamento de câncer de ovário e mostraram redução no risco de progressão de 42% (cerca de três meses) em comparação com o grupo de controle, que recebeu a terapia padrão com quimioterapia (capecitabina, vinorelbina ou eribulina). Os tumores também tiveram redução de 60% com o olaparibe versus 29% observado com a quimioterapia.

Outro ensaio de destaque chamou a atenção pelo resultado negativo. O estudo de fase III MARIANNE, que analisa o uso do anticorpo conjugado T-DM1 em mulheres HER2+, com câncer localmente avançado ou metástase não tratada, não mostrou melhoria de sobrevida global em comparação com o trastuzumabe e o taxano. Os resultados foram negativos para a droga usada sozinha e em combinação com pertuzumabe.

Apesar disso, o oncologista clínico Gilberto Amorim, do Grupo Oncologia D’Or, destaca a relevância do estudo. “Embora não exista vantagem com o uso da droga, todas as mulheres alcançaram mais de 30 meses de sobrevida global. São números muito importantes se comparamos com o trastuzumabe, que no CLEOPATRA conseguiu 40 meses. E contrasta muito com o que temos no SUS, onde não temos acesso ao trastuzumabe para metastático e com quimioterapia isolada mal conseguimos 15 meses”, diz.

As pacientes sobreviventes do câncer também receberam uma boa notícia: uma pesquisa anunciada na ASCO fez cair por terra a ideia de que a gravidez poderia aumentar o risco de recidiva da doença. O estudo analisou mais de 1,2 mil pacientes, das quais cerca de um terço engravidou logo após a descoberta do câncer de mama. A conclusão, depois de 12 anos de follow up, foi de que as mulheres que engravidaram não apresentaram maior risco de volta do câncer do que aquelas que não engravidaram.

“Esse resultado é muito importante, visto que muitas mulheres jovens estão adiando cada vez mais a data da primeira gravidez por motivos pessoais. Quando essas mulheres jovens estão diante do tratamento do câncer de mama, a gravidez costuma ser adiada, mas, segundo esse estudo, a decisão de engravidar não aumentaria o risco para elas”,comenta Amorim.

O estudo mostrou ainda que existe a possibilidade de a gravidez ter ação protetora. As pacientes RE+ (receptor de estrogênio) que engravidaram durante o monitoramento tiveram uma chance 42% menor de morte do que as que não seguiram esse caminho.

CÂNCER DE PULMÃO
Para câncer de pulmão de não pequenas células, o evento trouxe resultados importantes que mudam a prática clínica, especificamente para pacientes com mutação ALK positiva. O estudo clínico ALEX comparou a droga padrão crizotinibe (Xalkori) com um inibidor de ALK mais recente, o alectinibe (Alecensa), ainda não aprovado no Brasil. Este último possibilitou uma sobrevida livre de progressão de 15 meses a mais, com menos efeitos colaterais e redução de metástase cerebral, passando a ser a recomendação de terapia. O risco de progressão e morte caiu 53%.

“Ninguém imaginava que seria possível ter um resultado tão significativo”, comentou em coletiva de imprensa a autora principal do trabalho, Alice Shaw, diretora de oncologia torácica no Massachusetts General Hospital Cancer Center, em Boston. “A maioria das terapias-alvo para pulmão tem, em média, 12 meses de sobrevida.” O novo protocolo de tratamento já deve começar a ser usado nos Estados Unidos. No Brasil, porém, o alectinibe ainda não foi aprovado. O oncologista Carlos Gil Ferreira, do Grupo Oncologia D’Or, acredita que ainda pode haver um longo caminho pela frente até que isso ocorra. “O estudo traz uma mudança imediata na prática clínica, mas infelizmente no Brasil isso não vai ocorrer”, comenta.

CÂNCER DE PRÓSTATA: DROGA ANTIGA, NOVOS USOS
Para o câncer de próstata, a reunião trouxe dois estudos com resultados positivos usando a abiraterona (Zytiga), já usada no tratamento da doença para pacientes resistentes ao tratamento padrão de castração. Os ensaios clínicos agora apontam para um uso mais amplo da droga. Um dos estudos analisou o uso do medicamento associado à prednisona para pacientes metastáticos recém-diagnosticados e já tratados com hormonioterapia. O outro avaliou uso da abiraterona para homens com câncer de próstata metastático ou avançado iniciando a hormonioterapia.

O primeiro trabalho, LATITUDE, selecionado para apresentação na sessão plenária da ASCO, avaliou mais de 1.200 pacientes e indica que a associação de abiraterona e prednisona ao tratamento padrão diminuiu o risco de mortalidade em 38% e mais que dobrou a sobrevida livre de progressão, de 14,8 meses no grupo controle para 33 meses.

O diagnóstico do câncer de próstata acontece já em estágio metastático em cerca de 3% dos casos nos Estados Unidos e em até 60% dos casos na Ásia. “Há uma grande necessidade de melhoria no tratamento do câncer de próstata para pacientes recém-diagnosticados com metástase. Esses pacientes costumam morrer em menos de cinco anos após o diagnóstico”, diz o líder da pesquisa, Karim Fizazi, da University Paris-Sud, na França.

O segundo estudo, STAMPEDE, avaliou 9.000 homens com câncer de próstata avançado ou metastático começando o tratamento padrão com hormonioterapia. O
estudo foi feito com o formato multi-arm e multi-stage, e os resultados são fruto da sexta rodada de testes.

Dos pacientes que receberam abiraterona, 83% mostraram uma sobrevida livre de progressão em três anos, contra 76% no grupo que recebeu o tratamento padrão. O uso da abiraterona reduziu o risco relativo de falha do tratamento em 71%, e os efeitos colaterais foram semelhantes aos do grupo controle, embora mais prevalentes. Os pesquisadores acreditam que os benefícios da droga se aplicam para toda a população de pacientes com câncer de próstata, e não só para os metastáticos. Eles também pretendem avaliar a possibilidade de usar a abiraterona combinada com docetaxel em pacientes com câncer de rápido crescimento.

“Esses dois estudos já vão começar a mudar a prática dos oncologistas. Desde já, vamos passar a discutir essas opções com nossos pacientes”, diz Daniel Herchenhorn, oncologista clínico do Grupo Oncologia D’Or.

O oncologista clínico Igor Morbeck, da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), lembra, no entanto, que ainda há dúvidas quanto à continuidade do uso da quimioterapia com docetaxel nesse cenário. “A vantagem da abiraterona recai para a toxicidade, claramente menor que a quimioterapia. Porém, o tempo de uso prolongado (36 meses segundo o estudo LATITUDE) e o custo final do tratamento são potenciais desvantagens”, aponta.

Acesse o vídeo da cobertura da ASCO e confira as principais novidades: goo.gl/EqdE33

*Conteúdo publicado originalmente na revista Onco&