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26/09/2017 - TDAH Alterações no cérebro são indentificadas


 

 

Por Paulo Mattos, Coordenador de Neurociências do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em Psiquiatria e Saúde Mental.

 

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, com forte influência genética, que se inicia na infância e pode persistir na vida adulta em pouco menos da metade dos casos (1). O TDAH é caracterizado por níveis de desatenção, hiperatividade e impulsividade mais elevados do que aqueles encontrados na população geral, sendo um diagnóstico dimensional (como a diabetes mellitus e a hipertensão) e não categorial (como as infecções virais ou os carcinomas), Não se trata, portanto, de ter ou não ter TDAH, mas sim da intensidade dos sintomas.

 

Os 18 sintomas (9 de desatenção e 9 de hiperatividade-impulsividade) que caracterizam o transtorno foram adaptados para a língua portuguesa do Brasil por nosso grupo de pesquisa na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), há cerca de 10 anos, e se mantêm os mesmos. Constam na última edição do Manual de Estatística e Diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria, o DSM-5 (2).

 

SINTOMAS E DIAGNÓSTICO

Como ocorre em outros diagnósticos, é necessário apresentar um número mínimo de sintomas para se fazer o diagnóstico. Embora esses sintomas sejam os definidores do diagnóstico, sabe-se atualmente que existem inúmeros outros sintomas associados, tais como as dificuldades de percepção da passagem do tempo, de memória operacional, de planejamento, dentre outras. Num estudo realizado no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), nosso grupo de pesquisa, em conjunto com a Okinawa Institute of Science and Technology do Japão, demonstrou, por exemplo, que o chamado sistema cerebral de recompensas (que modifica nosso comportamento a partir do recebimento de recompensas reais) funciona de modo deficitário no TDAH (3).

 

O diagnóstico de TDAH é feito de forma clínica, com base em entrevista extensa e detalhada que deve ser realizada por profissional treinado. Embora estudos epidemiológicos não apontem para um aumento na prevalência do TDAH quando se empregam critérios rigorosos de diagnóstico (como ocorre em pesquisas), existem dados evidenciando um aumento no número de casos em diferentes países nas últimas décadas, possivelmente por conta de diagnósticos que não seguem os procedimentos recomendados.

 

À semelhança do que ocorre com outros diagnósticos, como o autismo, o transtorno de pânico, o transtorno obsessivo-compulsivo, a depressão, etc., não existem exames complementares (laboratoriais de sangue, eletroencefalograma, ressonância nuclear magnética, etc.) necessários para o diagnóstico de TDAH. Entretanto, é frequente na prática clínica a solicitação de Exame Neuropsicológico (que pode ser realizado no IDOR), porque permite evidenciar de modo mais extensivo e detalhado as dificuldades do indivíduo, além de serem investigadas comorbidades frequentes no TDAH, como é o caso do transtorno de leitura (dislexia), algo frequentemente negligenciado na prática clínica.

 

O TDAH pode se associar a desfechos negativos em diferentes áreas. No caso de crianças e adolescentes, as principais queixas costumam ser de mau desempenho acadêmico ou de comportamento, principalmente no ambiente escolar em que a criança tem de seguir regras e prestar atenção por tempo prolongado, muitas vezes em atividades monótonas ou menos prazerosas. A criança ou o adolescente com TDAH também apresenta, frequentemente, dificuldades de relacionamento social com seus colegas.

 

Portadores adultos podem ter menos anos de estudo completados, estão mais suscetíveis a sofrer acidentes em geral, têm maiores taxas de desemprego e divórcio, maior uso de drogas, maior incidência de depressão e ansiedade, dentre outros.

 

O maior estudo de neuroimagem envolvendo crianças, adolescentes e adultos com TDAH até o momento foi publicado na revista Lancet este ano (4). O IDOR foi o único centro de pesquisa de toda a América Latina com participação no estudo. A pesquisa foi de grande importância porque demonstrou, a partir de uma grande amostra em mais de 10 países – diagnosticada com critérios rigorosos –, que existem alterações em estruturas cerebrais no transtorno, pondo fim à argumentação em algumas publicações leigas de que o TDAH seria um “transtorno inventado”.

 

Referências

 

1. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA. TDAH. Disponível em: <http://www.abp.org.br/portal/curso-tdah-online/>. Acesso em: 12 set. 2017.

 

2. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM–5). 2013. Disponível em: <https://www.psychiatry.org/psychiatrists/practice/dsm>. Acesso em: 12 set. 2017.

 

3. FURUKAWA, Emi et al. Abnormal Striatal BOLD Responses to Reward Anticipation and Reward Delivery in ADHD. 2014. Disponível em: <http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0089129>. Acesso em: 12 set. 2017.

 

 

4. HOOGMAN, Martine et al. Subcortical brain volume differences in participants with attention deficit hyperactivity disorder in children and adults: a cross-sectional mega-analysis. 2017. Disponível em: <http://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366(17)30049-4/fulltext>. Acesso em: 12 set. 2017.